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Entrevistas Realizadas

ISABELL MACHADO - Coordenadora do Ponto de Cultura Cinema em Palavras

Por Fabio Codeço

Isabell Machado é agente cultural do Cinema BR em Movimento e coordenadora do Ponto de Cultura Cinema em Palavras, projeto que trabalha pela inclusão social, cultural e digital de deficientes visuais. Filósofa e professora de História do Cinema, há 7 anos ela exibe filmes para portadores de cegueira. Para Isabell, seu trabalho atua na construção da cidadania ao garantir aos deficientes visuais autonomia intelectual. “Os filmes são um meio de comunicação com o mundo, e de expressão também”, explica. A professora, que já ministrou um curso de História do Cinema no Museu da Imagem e do Som de Campinas, é apaixonada por este trabalho.

Cine Jornal: De onde surgiu a idéia de exibir filmes para deficientes visuais?
 
ISABELL MACHADO: Quando estava cursando a faculdade de filosofia na Unicamp, em 2000, fui convidada pela coordenadora técnica do Centro Cultural Luis Braille, Eduarda Leme, para narrar filmes, atividade que ela já havia iniciado há alguns anos. Como na época eu havia estudado um filósofo do século XVIII, Denis Diderot, e lido de sua autoria a "Carta sobre os cegos", iniciei então meu trabalho junto aos deficientes visuais do Braille, lendo e discutindo com eles o citado filósofo. Desse modo comecei a estudar outros filósofos que discutiam a metáfora do olhar e a ampliar para outras esferas a atividade de cinema narrado e fazer dela uma oportunidade para discutir, além de filmes, a construção do conhecimento através de todos os sentidos e não só do olhar.
 
Cine Jornal: De que maneira o cinema pode contribuir para a socialização de deficientes visuais?
 
ISABELL: O cinema é uma linguagem que retrata a cultura dos países, portanto, é uma ferramenta que conjugada com a filosofia ajuda o deficiente visual a construir seus conceitos, ampliar seus interesses e desenvolver sua autonomia cultural. Através dos debates sobre os filmes, as pessoas exercitam sua argumentação e adquirem segurança para viverem em sociedade. É somente a partir de oportunidades e da liberdade de se relacionar com o mundo que um indivíduo pode tornar-se cidadão.
 
Cine Jornal: Como suprir o estímulo visual neste caso?
 
ISABELL: Durante a exibição do filme, no "espaço vazio" (momento em que os personagens não estão falando), tento descrever oralmente o cenário, a expressão dos rostos, as roupas das pessoas, os detalhes. Demonstro aos deficientes visuais que, apesar de nós, videntes, vermos, enxergamos coisas diferentes pois, a cada instante, nossa percepção está voltada para coisas diferentes. Forneço elementos visuais que os ajudam na compreensão da história.
 
Cine Jornal: Sabemos que a objetividade absoluta é uma utopia. O olhar é diferente em cada pessoa. Isto se configura um problema na hora de narrar um filme? Você se esforça pra não fazer a narração de forma muito subjetiva?
 
ISABELL: A subjetividade está intrínseca ao estabelecimento de nossos juízos sobre todas as coisas. Na frase " O olhar engana", não é o olhar que engana mas, o juízo que se faz das percepções, que vêm através de todos os sentidos que possuímos. Cada um percebe de modo próprio, por que seus sentidos fornecem sensações e informações que são processadas de modo diverso. Por isso, cada um estabelece um juízo diferente sobre as coisas, como o gosto e o prazer por exemplo. Esforçar-me para ser objetiva ou tentar não fazer a narração de forma subjetiva, é um ato no mínimo heróico! É quase insano tentar ser objetiva no momento de narrar um filme. Tenho sim que, concentrar-me para não deixar escapar do verbo aquilo que minha razão e sensibilidade dizem-me ao mesmo tempo! O mais difícil é explicar a eles que, apesar de vermos, enxergamos coisas diferentes. Um objeto pode estar diante de mim mas não o enxergo, e é por isso que, quando narro pela segunda ou terceira vez um mesmo filme, eles dizem " Bell, você não falou isso da outra vez!", e eu digo: " É porque não vi!" E eles dizem: " Mas você é cega?!" E eu digo: "Não, mas o orgão olho não dá conta de absorver todas as informações. Na verdade, às vezes, ele atrapalha, e temos de fechar os olhos para que os outros sentidos nos ajudem a buscar a "verdade". Por essas e outras razões que a filosofia, a psicologia e a psicanálise empenham-se em explicar, é que eu não tenho a pretensão de ser acertiva ou objetiva na narração de um filme. Tento ser verdadeira, dentro do tempo e espaço do filme. Tento ficar lúcida mas ao mesmo tempo, entregar-me ao delírio poético, pois somente ele exprime a desconexão do real. -E o que é a arte cinematográfica?! Não é de um certo modo, a construção de um novo conhecimento que por vezes não faz parte de nossa realidade? Penso que a cada filme desafio meus sentidos e minha razão. Erro e acerto e não vejo nenhum problema em demonstrar isso aos deficientes visuais, pelo simples fato de que, ao contrário do que a sociedade pensa, o mesmo ocorre com eles, pois afinal são como nós. Estabelecem seus juízos através de todas as percepções que possuem.
 
Cine Jornal: Pessoas com cegueira congênita têm maior dificuldade por não possuírem referências visuais? Como se dá a construção do conhecimento em deficientes visuais a partir do cinema?
 
ISABELL: É natural que as pessoas tenham dificuldade em pensar no modo pelo qual um deficiente visual congênito constrói seu conhecimento pois, não convivem com eles. A primeira coisa importante a dizer é que, assim como nós videntes temos um modo próprio de perceber e conceituar as coisas, os deficientes visuais também têm. Por isso, não é possível responder de um modo generalizado. Alguns têm muita facilidade para apreender, outros menos e outros grande dificuldade. A segunda coisa importante a dizer é que, os deficientes visuais constroem seu conhecimento a partir dos conceitos e das referências visuais dos que vêem, mas constroem de modo próprio, com suas experiências, através de todos os sentidos que possuem como o tato, olfato, audição,etc. Voltando a sua pergunta, as dificuldades do deficiente visual apreender o que está sendo exibido, não decorrem da falta de referências visuais, mas da maneira pela qual elas foram transmitidas a eles de modo a formarem seus conceitos. É a falta de conceitos elaborados que pode dificultar a apreensão dos elementos filmicos, assim como das idéias de um modo geral.
Cine Jornal: Não seria relativamente simples disponibilizar em cópias de DVD uma versão narrada para os deficientes visuais? O que falta para isso ser feito de forma permanente?
 
ISABELL: Nos EUA existem salas de cinema, onde alguns lugares são reservados para deficientes visuais. Ali eles têm acesso a um equipamento com fone de ouvido que no momento em que o filme começa, é acionada uma gravação com a narração das cenas. Esse é um modo democrático do deficiente visual poder ir ao cinema quando quiser , ou pegar um DVD em casa, sem depender de um parceiro que o acompanhe para narrar. Lembro-me quando saiu o filme RAY nos cinemas no Brasil. Não pude levar os deficientes visuais ao cinema pois não fizeram cópias dubladas. Tive que esperar sair em DVD. - Não é o máximo da falta de respeito e alienação por parte das distribuidoras?! Penso ser fundamental para os D.V o acesso às versões narradas, mas é muito importante também que eles tenham sempre a oportunidade de assistir aos filmes junto com outras pessoas não portadoras de D.V, com a narração ao vivo, pois cada pessoa narra de um modo diferente e de acordo com eles, isso enriquece a história. O Cinema narrado é um momento de socialização. É uma experiência que todos nós videntes deveríamos vivenciar para termos a real dimensão de quem somos e o quanto temos que aprender com nosssos outros sentidos, que não a visão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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