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Entrevistas Realizadas

RICARDO FAVILLA - Cineasta

Por Fabio Codeço

A partir dessa edição, o Cinema BR em Movimento traz como novidade a exibição de curtas-metragens abrindo cada sessão do projeto. Para falar um pouco desse formato, o Cine Jornal conversou com o cineasta Ricardo Favilla, diretor de “A Degola Fatal”, em cartaz no Circuito Universitário até o dia 15 de junho. Favilla tem história com o Cinema BR em Movimento. Ele foi um dos responsáveis pela estruturação do projeto e por botá-lo em prática, em 2000. Sua carreira começa na década de 70, quando ainda cursava engenharia na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Lá descobriu um ateliê de Super 8, onde conheceu Clóvis Molinari, co-diretor do filme. Junto com Molinari e outros amigos criou o “Dastrixuplas”, grupo que entre 78 e 84 documentou, no Rio de Janeiro, fatos como o incêndio do Museu de Arte Moderna, em 1978, a eleição de Brizola para o Governo do Estado, em 82, e a Campanha das Diretas Já, em 84. Trabalhou como produtor e assistente de direção de diversos longas-metragens e dirigiu programas para a TV. Hoje, Favilla se dedica à sua produtora, Rio de Cinema, que prepara mais um documentário a partir de imagens da demolição do antigo prédio da UNE, na Praia do Flamengo.

Cine Jornal: Que contribuição o documentário pode dar ao cinema e a cultura brasileira de um modo geral?
 
RICARDO: Dinamizando a linguagem, oferecendo novas abordagens, pontos de vistas diversos sobre os temas e aspectos que norteiam e dominam a sociedade, a história, as pessoas, personalidade e anônimo, e a cultura brasileira.
 
Cine Jornal: O diretor Vladimir Carvalho escreveu certa vez em ensaio para a Revista Cinemais: "todo documentário, por mais radical que seja, tem muito de autobiografia, tem muito de quem fez, de tudo que ficou para trás e que na verdade não ficou, veio junto com você". Você concorda com ele?
 
RICARDO: Concordo uma vez que alguém, um sujeito, é o responsável pela reunião
deste material fílmico. Ele é responsável pela existência do filme e vai colocar lá, conscientemente ou não, a sua visão, sua opinião, sua bagagem de vida, as idéias e visões do seu tempo.
 
Cine Jornal: Fale um pouco da produção de "A Degola Fatal". Como foi para um jovem, iniciando a carreira cinematográfica, presenciar aqueles momentos tão marcantes que foram o velório e sepultamento de Glauber Rocha?
 
RICARDO: Aquele foi o encontro que não houve, entre um grupo de jovens cineastas superoitistas, uns 10 mais ou menos, e aquele que era para nós no Brasil o paradigma da criação cinematográfica livre. Aguardávamos ansiosos o dia que conheceríamos e falaríamos com Glauber. Ele estava em Portugal, numa espécie de auto-exílio após ter realizado “Idade da Terra”, filme que fora recebido de maneira raivosa no Brasil. Infelizmente ele já retornou muito mal e faleceu dias depois. Jamais teríamos a chance de nos relacionarmos com ele. Bem ou mal, a forma que encontramos naquele dia 21 de agosto de 1981 foi ir ao velório e ao funeral com nossas pequenas câmeras e repetir seu gesto diante da morte de Di Cavalcante, registrá-lo para tentar de forma tosca apreender o homem que ali não estava mais.
 
Cine Jornal: Aliás, aproveitando, como você definiria aqueles momentos? Parece-me que as pessoas ali estavam imbuídas por um sentimento quase que revolucionário.
 
RICARDO: Havia muita confusão! “Assassinato cultural” era a expressão mais dita no local. Glauber representava a catarse e a criação pura do cinema, ele estar morto ali, vítima de uma doença corrosiva, era uma metáfora ao momento que atravessava a criação cultural no país. Tudo estava muito conturbado, a política a cultura os valores questionados. Todos ficaram muito tocados e de certa forma imbuídos desta vontade de mudar radicalizar, desmontar a ordem e o sistema vigentes, traços característicos dos revolucionários, como Glauber.
 
Cine Jornal: Porque o filme demorou tanto a sair da gaveta?
 
RICARDO: Num primeiro momento ele existiu como o Super 8. Na verdade eram dois filmes somando quase 40 minutos de material. Mas os problemas entre referentes ao filme "oficial" bancado pela Embrafilme e a família de Glauber, nos levaram a refletir que o melhor era deixá-los guardados esperando no futuro o resgate deste material. Isto foi possível graças ao fim da novela do filme do Silvio Tendler e às novas tecnologias digitais e de ampliação que foram capazes de recuperar este material e ampliá-lo para 35mm. Eu e o Clovis (Molinari, co-diretor do filme) costumamos dizer que a Degola é um “Super-8 vitaminado”.
 
Cine Jornal: Como você vê a atual produção nacional de curtas-metragens?
 
RICARDO: Como sempre, desde a década de 70. Diversificada, vigorosa, cada vez maior com ótimos, bons, razoáveis e maus filmes. Daí sempre sai contribuições e pessoas que vão agitar e revigorar o cinema brasileiro.
 
Cine Jornal: Como enfrentar o problema da escassez de espaços de exibição para este formato?
 
RICARDO: Isto sempre existiu por uma questão econômica, acho que a volta da lei do curta seria uma forma, ela funcionava muito bem no final da década de 80. As platéias teriam acesso a bons curtas nos cinemas em sintonia com a programação dos longas. O estimulo a Cineclubes em todo Brasil seria outra, lançar coletâneas em DVD e obviamente um espaço na televisão. Acho que o Minc até que está agindo bem neste sentido, com exceção de fazer cumprir a lei do curta que ainda está valendo, mas não é executada.
 
Cine Jornal: Esta situação desestimula novos criadores?
 
RICARDO: Acho que não. Onde tiver uma câmera e um cara com vontade de fazer, daí vai surgir um filme, seja tosco ou super produzido.
 
Cine Jornal: Você acha que o curta é apenas um meio de se ingressar na cinematografia ou ele pode se firmar como linguagem, com profissionais “especializados”?
 
RICARDO: É uma questão de ele ser economicamente viável e as pessoas poderem sobreviver da atividade audiovisual. Nem todo mundo quer ficar fazendo longas ou trabalhando para tv e publicidade. As idéias, às vezes, só cabem em poucos minutos, mas cinema, mesmo hoje com a tecnologia digital, é uma atividade cara e de equipe, são necessários recursos para que as pessoas se mantenham em atividade.
 
Cine Jornal: E a questão das novas tecnologias? Sabemos que elas democratizam a produção, tornando-a mais barata. Mas que transformações elas trazem em termos estéticos?
 
RICARDO: Todo novo meio de captar e manipular a imagem traz internamente novas formas de pensar e se relacionar com o mundo e a criação, isto estimula a renovação estética e comportamental. O diferente, o estranho, o “defeito" acaba se incorporando a linguagem corrente, e passa a ser parte da gramática visual do mundo. O Super 8, por exemplo, quando surgiu e se popularizou nas décadas de 60 e 70 trazia aquelas imagens tremidas, granuladas, muito zoom, interrupções de imagens, entradas de luz, o flash frame... Estes defeitos, entre aspas, foram incorporados à linguagem corrente dos chips, publicidades e filmes do mainstream.
 
Cine Jornal: Você está com algum novo projeto?
 
RICARDO: Estou trabalhando em mais um projeto com o Clóvis. Pretendemos fazer um documentário com imagens que fizemos da demolição do antigo edifício da UNE, na Praia do Flamengo. Vai ser mais um filme de arquivo.
 
Cine Jornal: Você poderia dar alguma dica para quem pretende se dedicar ao cinema como ofício?
 
RICARDO LEIA, LEIA, LEIA. VEJA, VEJA, VEJA. ESCREVA, ESCREVA, ESCREVA. FILME, FILME, FILME. O audiovisual é um trabalho de equipe, procure se juntar ou formar grupos que tenham esta atividade como foco de sua existência, alguns grupos dão certo outros não, nenhum dura para sempre, mas o importante é se manter em movimento.

 


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